Dr. Rogerio Gomes - Cirurgia Plástica - Florianópolis | O clube secreto que revolucionou a cirurgia plástica
Como um clube de médicos revolucionou a Segunda Guerra Mundial
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Clube secreto da Segunda Guerra Mundial que revolucionou a cirurgia plástica

Clube secreto da Segunda Guerra Mundial que revolucionou a cirurgia plástica

O post, escrito por Olga Oksman e traduzido livremente do site Gizmodo, remonta a história do Guinea Pig Club, que reuniu muitos soldados gravemente queimados em torno de uma missão: reconstruir suas vidas e reinseri-los na sociedade. Conduzido pelo cirurgião plástico Archibald McIndoe, um pioneiro no tratamento de queimaduras severas e responsável por desenvolver muitas técnicas que são usadas até hoje

Um dos clubes mais exclusivos da Grã-Bretanha não é cheio de herdeiros ricos e socialites, mas reúne ex-pilotos e ex-militares como membros: é o Guinea Pig Club e tem regras e taxas de admissão exorbitantes. Para se tornar um membro é preciso ter ao menos duas cirurgias plásticas reconstrutivas no Queen Victoria Cottage Hospital, no Reino Unido, feitas pelo cirurgião plástico Archibald McIndoe nos anos 1940. No fim da Segunda Guerra Mundial eram 649 membros, em sua maioria da Grã-Bretanha, mas também originários do Canadá, Austrália, Nova Zelância e República Tcheca.

Antes da Segunda Guerra as queimaduras severas eram raras e causadas principalmente por acidentes domésticos. O conflito armado mudou isto: voar em aviões perigosos e suscetíveis a acidentes, como os Spitfires e Hurricanes, cheios de combustível altamente inflamável que respingava em pilotos e na tripulação, resultava em homens desfigurados por queimaduras em todo o corpo.

McIndoe, natural da Nova Zelândia, foi um pioneiro da cirurgia plástica e desenvolveu diversas técnicas que ainda são usadas atualmente para tratar queimaduras severas. Ainda assim, reconhecia que para tratar o trauma externo era preciso também tratar do trauma interno – assim surgiu o Guinea Pig Club.

Na época a cirurgia plástica ainda era muito elementar. Até mesmo coisas simples como a melhor forma de tratar as queimaduras antes de tentar uma cirurgia plástica era uma questão de tentativa e erro. O senso comum do período dizia que era necessário usar uma espécie revestimento químico, geralmente utilizado em queimaduras menores. Esta substância formaria uma camada protetora que permitia a cura dos ferimentos, mas se provou desastrosa no tratamento de queimaduras severas em áreas maiores do corpo. O revestimento secava a pele, causava cicatrizes adicionais e sua remoção era incrivelmente dolorosa. Depois de experimentar o revestimento com pouco sucesso, McIndoe observou que as queimaduras de pacientes que caíram na água eram curadas com mais rapidez. A partir de então o cirurgião plástico passou a utilizar banhos salinos para as queimaduras.

Medidas drásticas eram necessárias quando era preciso reconstruir lábios, narizes e faces. Um grande pedaço de pele retirado de uma área não afetada pela queimadura, como a coxa, por exemplo, não sobreviveria ao transplante. McIndoe, então, cuidadosamente deixava o retalho de pele conectado no local de origem, o enrolava em forma de tubo e então ligava o tecido próximo ao local em que iria utilizado depois – como o braço ou o ombro, por exemplo. Assim que o retalho estivesse recuperado e começasse a puxar o sangue do braço, o cirurgião plástico o separava do local de origem para ligá-lo à face: quando o tecido se recuperasse novamente, McIndoe o usava para a cirurgia plástica reconstrutiva. Os pacientes precisavam andar com suas faces conectadas aos ombros ou braços por um tubo de pele, que parecia uma tromba de elefante – mas funcionavam. Grandes pedaços de pele sobreviviam e podiam ser usados para os procedimentos.

Um dos membros, Bill Foxley, passou por 29 cirurgias plásticas para reconstruir seu rosto. Quando seu avião caiu, ele conseguiu sair ileso, mas correu na direção do veículo em chamas para tentar salvar o operador que ainda estava preso dentro. Seu esforço para liberar o colega das ferragens lhe rendeu queimaduras graves (o operador não sobreviveu). Um olho foi destruído, juntamente com a pele, músculos e cartilagem de rosto até as sobrancelhas. A córnea do outro olho foi gravemente ferida. Foxley nunca mais sorriu devido aos seus ferimentos, mas isto não o impediu de casar com uma das enfermeiras do hospital em 1947 ou de construir uma carreira depois da guerra.

Outro paciente, Sandy Saunders, era piloto de planador. Quando seu avião caiu, sofreu queimaduras em 40% do corpo. Seu nariz e pálpebras tiveram que ser reconstruídas. A experiência o inspirou a se tornar médico: ele passava seu tempo de recuperação entre as cirurgias observando o Dr. McIndoe operar outros pacientes e dissecando sapos para se preparar para sua carreira depois da guerra.

Uma das coisas mais incríveis do Guinea Pig Club era a atitude dos médicos de das enfermeiras. Eles não tratavam os pacientes como inválidos em recuperação, mas criavam um ambiente alegre e natural no hospital. McIndoe ignorava os flertes inapropriados entre os jovens solitários e as enfermeiras. Uma delas lembrava-se de como um dos pacientes conseguia apertá-la, apesar das mãos gravemente queimadas. Quando ameaçou dar-lhe um soco no nariz se fizesse aquilo novamente, o homem a lembrou que ele não tinha um. “Mal posso esperar”, ela retrucou.

Os integrantes tinham um senso de humor sombrio. Quando o clube foi fundado, eles selecionaram um piloto com os dedos gravemente queimados como secretário, assim ele não poderia fazer atas. Outro piloto, desta vez com as pernas severamente queimadas, foi escolhido para ser o tesoureiro do clube, pois não poderia fugir correndo com o dinheiro.

Eram homens jovens, na maioria com 20 e poucos anos. Alguns eram suicidas quando chegaram ao hospital: eles tinham sobrevivido enquanto seus amigos pereceram. Eles pensavam que suas vidas haviam acabado. Certa vez McIndoe levou algumas dançarinas de Londres para visitá-los para convencê-los de que ainda podiam falar com belas mulheres. O cirurgião plástico também era liberal: deixava fará quantidade de cerveja disponível aos membros, afinal de contas o Guinea Pig Club era um clube de bebida.

Esta foi um dos primeiros esforços que focou tanto na recuperação física quanto psicológica dos pacientes. Antes do clube, pessoas com lesões e acidentes que os deixavam desfigurados eram simplesmente escondidas. Ao invés de taxá-los como pilotos queimados, jovens desafortunados, McIndoe os apresentava como heróis a serem celebrados pela coragem – se havia uma inauguração ou lançamento de cinema na cidade, o cirurgião plástico fazia seus pacientes serem convidados de honra nestes eventos.

Isto funcionou. A cidade de Grinsted, onde o hospital ficava, se tornou conhecida como “a cidade que não se espanta”. Muitos membros do clube se casaram com mulheres que conheceram durante sua recuperação.

A motivação para a criação do Guinea Pig Club também teve outras motivações, além do altruísmo. A Força Aérea Real queria descobrir qualquer coisa que os pudesse fazer a voltar ao serviço militar. Ainda assim foi uma grande mudança dos militares, de acordo com a historiadora Emily Mayhew, autora de “A Reconstrução de Guerreiros”.

Depois da guerra os pacientes mantiveram as reuniões. Apenas em 2007, quando o membro mais velho tinha 102 anos e o mais jovem 82, eles decidiram que estavam um pouco velhos de mais para continuarem se deslocando para os encontros. O Guinea Pig Club demonstrou que a chave para a resiliência é um pouco de humor, aceitação social e a consciência de que não está sozinho.

Fonte: SBCP

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